Manejo do solo no período de inverno

Tema é abordado em série de artigos de Jordano Vaz Ambus*




É chegado o período de inverno na região sul do Brasil, época do ano caracterizada pelas baixas temperaturas, considerada por muitos a entressafra das principais culturas. A própria nogueira, após a colheita, inicia o seu estado de dormência, no qual perde as folhas e irá retornar a sua brotação somente na primavera. E o solo? Ele também está em estado de dormência nesse período? Neste texto, vamos abordar alguns aspectos importantes do manejo do solo nos meses de inverno que podem ser interessantes para os produtores de pecan e também demais agricultores que sabem da importância de conhecer e principalmente cuidar do solo.



É importante frisar que, independentemente da época do ano na qual nos encontramos, o solo deve sempre ser cuidado e manejado, pois a atividade microbiológica, embora possa diminuir com os meses mais frios, não irá cessar. Assim, devemos manter o solo vivo e saudável nesses meses de “entressafra” para que, no momento em que seja iniciado um novo ciclo de brotação, o aporte de material orgânico no solo e as melhorias em sua estrutura física possam trazer muitos benefícios para as plantas durante o novo ciclo.


Figura 1

Um dos pontos mais importantes no manejo e qualidade do solo que sempre iremos destacar é, sem dúvidas, a cobertura viva permanente. As plantas de cobertura mantêm o desenvolvimento de raízes no interior do solo, auxiliam na estruturação da porosidade, sustentam a atividade microbiana, mantêm o solo protegido da degradação tanto pela erosão quanto pela compactação, aumentam a retenção de água e os teores de matéria orgânica, além de melhorar a ciclagem e a disponibilidade de nutrientes. Enfim, manter o solo coberto é primordial em qualquer sistema de cultivo (figura 1).



SOMBREAMENTO


Manter o solo vivo e protegido ao longo do ano pode não ser uma tarefa muito simples, principalmente nos cultivos de frutíferas de grande porte como as nogueiras, porque, em boa parte do ano, ocorre o sombreamento pelo dossel das árvores, o que dificulta o desenvolvimento das plantas de cobertura pela falta de luminosidade no interior do pomar. Contudo, nos meses de inverno, as árvores em estado de dormência permanecem sem folhas, isso facilita o estabelecimento e desenvolvimento das plantas de cobertura cultivadas no inverno. Existem diversas espécies de forrageiras que se desenvolvem preferencialmente nos meses frios no sul do Brasil, como as leguminosas: ervilhas, trevos, cornichão, serradela e alfafa. As gramíneas: aveia-preta, aveia-branca, azevém, cevada, centeio, triticale e trigo. O nabo forrageiro também é bastante utilizado, todavia pertence à família das crucíferas.



Todas essas plantas podem ser cultivadas no sul do país durante o inverno, cada uma com suas peculiaridades de manejo. As mais comuns utilizadas no Rio Grande do Sul são as aveias, o azevém, os trevos e ervilhacas, sendo conduzidas muitas vezes em consórcio, ou seja, semeadas juntas para que o benefício dessas plantas seja potencializado.


Figura 2

O cultivo de gramíneas no inverno, como a aveia e principalmente o azevém, traz muitos benefícios ao solo e ao sistema como um todo, pois são culturas que possuem raízes finas extremamente agressivas (figura 2) que são capazes de ocupar os espaços no solo e estruturar a porosidade, além de aumentar os estoques de carbono pela intensa produção de palhada e liberação de compostos orgânicos benéficos aos organismos (exsudatos).



Figura 3

O cultivo das leguminosas também gera benefícios semelhantes aos das gramíneas, mas com um destaque muito especial à habilidade que essas espécies possuem de se associar a organismos fixadores de nitrogênio (N) que retiram esse elemento do ar e o disponibilizam para as plantas (figura 3), que posteriormente serão decompostas e o N será disponibilizado às culturas de interesse, nesse caso, às nogueiras.



CARBONO


Como mencionado anteriormente, no verão, o sombreamento dificulta o estabelecimento das plantas de cobertura, logo, o período de inverno é o melhor momento para que seja feito um estoque de carbono, tanto em superfície em forma de palhada como em subsuperfície com as raízes das plantas, para que a microbiota do solo tenha alimento durante os meses mais quentes e o solo permaneça coberto. Outro ponto interessante do inverno no sul é que muitas plantas indesejadas (inço) encerram seu ciclo no inverno e ainda sofrem o efeito da geada. Assim, a competição que as forrageiras de inverno enfrentam é pequena, o que favorece o seu estabelecimento. Em relação às plantas indesejáveis que se desenvolvem no verão, quando a cobertura de inverno é bem feita e deixa uma espessa camada de palha ao final do ciclo, além de todos os benefícios ao solo já citados, isso também dificulta a emergência das plantas indesejáveis, o que gera economia em roçadas e manejos de controle de invasoras.

Outra oportunidade interessante para meses de inverno é a integração com animais, com o pastejo das forrageiras implantadas nesse período, o que pode gerar muitos benefícios ao solo e ao sistema e também maiores retornos econômicos aos produtores (figura 4). Contudo, quando falamos em integração, devemos ter cuidado, pois, quando inserimos mais um componente ao sistema, ele irá se tornar mais complexo e devemos ter um controle mais rigoroso do manejo. O pisoteio animal tem um potencial compactador do solo bastante intenso, logo, o principal ponto que deve ser observado é o nível de lotação, que não pode exceder a capacidade de suporte do solo e também da pastagem. Lotações altas, além de aumentar a compactação do solo, reduzir a porosidade e retenção de água, consomem praticamente toda a palhada que deveria ser preservada para os meses mais quentes.


Por outro lado, o pastejo com lotações adequadas, preservando a maior parte da cobertura vegetal, pode ser extremamente benéfico ao solo, pois o corte constante das gramíneas induz o seu perfilhamento e, por consequência, o maior enraizamento. Isso reduz a compactação, melhora a estrutura e porosidade com maior aporte de carbono no interior do solo, aumenta a produção dos exsudatos radiculares e conduz os nutrientes pouco móveis e a correção de acidez para as camadas mais profundas, importante em pomares. Outro ponto muito positivo é que o solo e as plantas se beneficiam dos resíduos deixados pelos amimais (fezes e urina), o que aumenta a ciclagem de nutrientes. É importante frisar que tanto a entrada quanto a saída dos animais deve ser feita cedo; a entrada para que as forrageiras estejam em pleno desenvolvimento e a saída para que elas tenham tempo de recuperação, formem uma boa cobertura do solo e produzam sementes para o próximo inverno, como é o caso do azevém, trevo e ervilhaca.


CULTURA DE INTERESSE


Obviamente, quando se opta por um manejo que prevê a semeadura de forrageiras de inverno, as mesmas devem ser tratadas como uma cultura de interesse, com atenção especial para a correção do solo e adubação, para que tenham um bom estabelecimento e desenvolvimento. Lembrando que todo investimento feito na cobertura de inverno irá retornar como residual para a cultura principal no próximo ciclo, ou seja, é um investimento também na cultura principal.

Por fim, temos o inverno como um dos grandes momentos do ano para que possamos assegurar a qualidade do solo dos pomares e, com isso, melhorar as condições para que tenhamos boas safras. Sempre lembrando que os cuidados com o solo devem ser constantes, contudo devemos aproveitar os momentos em que as condições de clima facilitam esses cuidados.



Figura 4: bovinos em sistema integrado em pomar de nogueira-pecan. Fonte: Autor


Assim caminhamos rumo a uma agricultura forte, com sistemas produtivos e sustentáveis. Um bom inverno a todos!



* Engenheiro agrônomo, mestre e doutor em ciência do solo


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Figura 1: Cobertura do solo (azevém e trevo) em pomar de nogueira pecan. Fonte: Autor


Figura 2: Raízes finas e abundantes das gramíneas. Fonte: Agrourbano


Figura 3: Nódulos de fixação biológica de N em raízes de leguminosas. Fonte: Profissão Biotec


Figura 4: Bovinos em sistema integrado em pomar de nogueira pecan. Fonte: Autor


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